Eu escrevo e te conto o que eu vi

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Um gajo deveras apaixonado pelo que faz. Jornalista, magro, pobre e feio. Tio da Carolina e da Gabriela, marido da Viviane. Repórter de esportes e motor, sãopaulino consciente, assessor de imprensa, fanático por automobilismo e esportes de aventura, e também freelancer, porque ninguém é de ferro.

terça-feira, abril 25, 2006

Que pena...

AMERICANA (até que enfim) - Eu tenho pena de quem não vence. Mas também tenho pena de quem não perde nunca. Eu tenho pena de quem só faz o necessário, de quem não vai além. Eu tenho pena de quem não acredita em si mesmo. Eu tenho pena de quem não curtiu o Bozo na infância. De quem não jogou bola descalço na rua, de quem não levou chinelada da mãe, de quem nunca brincou de esconde-esconde. Eu tenho dó desse povo.

Eu tenho dó de quem está preso, mas não na cadeia, e sim de quem está preso há tempos a um amor infrutífero e sofrível, a um emprego medíocre. Eu tenho pena de quem não viu o mundo lá fora. Tenho pena de quem não se arrisca, de quem não bebe, não xinga, não fala palavrão, de quem jamais carregou uma dose de maldade no coração, por menor que fosse. De quem nunca soltou os cachorros e externou sua revolta. Eu tenho pena de quem nunca disse “vá à puta que o pariu”. Tenho pena de quem não desabafa, de quem não chuta o balde, o pau da barraca.

Eu tenho pena de quem não trabalha, mas também tenho pena de quem trabalha e não é feliz no emprego que tem. De quem não faz o que gosta. Tenho pena de quem não tem medo, de quem só se arrepende do que não fez. Tenho dó de quem não chora e de quem só ri. Dó de quem não sofre, não chorou por um amor, de quem nunca tomou um porre. De quem nunca ficou de bode, de quem não se apaixonou. De quem nunca se acabou ouvindo uma música triste e pensou na distante amada. De quem não pensa em Deus antes de dormir, de quem não pensa na mulher dos sonhos antes de dormir. Tenho pena de quem não sonha, nem dormindo, nem acordado. Tenho uma dó imensa de quem não consegue cair no sono.

Pena de quem nunca transou no banheiro, na piscina, na rede pendurada, na cozinha, no carro. De quem nunca levou a namorada pra passear de bicicleta, com ela na garupa ou mesmo no cano da bike. Dó de quem opta sempre pela segurança, de quem vive uma vidinha medíocre que não quer nem sofrer e nem gozar, nem perder e nem ganhar, de quem nunca correu da polícia. Tenho dó de quem nunca viajou pra longe com uma mochila nas costas. Tenho pena de quem nunca se aventurou, de quem nunca enfrentou o medo, de quem nunca desceu uma cachoeira alta pendurado apenas por uma corda. Tenho pena de quem nunca soube o que é a sensação de velocidade, de vento na cara, de liberdade. De quem não vibra, não chora por uma vitória.

Tenho pena de quem nunca conheceu os avós, não experimentou da melhor comida do planeta, não brincou com o avô. Tenho dó de quem nunca raspou a cabeça. De quem só reclama do chefe, de quem não se mexe para melhorar. Tenho pena de quem não dança, mesmo sem saber dançar – porque aí que fica legal. Tenho dó de quem não conta piada, mesmo sem saber contar. Tenho dó de quem tem um coração preso e fica no quarto esperando, e não vai curtir a vida, mesmo com o peito sufocado. De quem não cai na farra de vez em quando, de quem não faz novas amizades, de quem nunca beijou uma desconhecida, quem nunca fez uma loucura que fosse na vida, de quem não faz amigos virtuais, de quem nunca foi ao cinema sozinho. De quem não foi ao cinema com uma amiga só pela companhia.

Tenho dó de quem não é um bom ombro para chorar. Tenho dó de quem não valoriza o verdadeiro amigo. Tenho dó de quem só pensa em dinheiro. Tenho pena de quem nunca disse um “foda-se”, de quem nunca topou uma aventura, por mais louca e irreal que fosse. Eu tenho dó de quem é politicamente correto. Eu tenho uma puta dó de quem nunca pulou numa piscina gelada no inverno, de quem nunca tomou chuva, de quem nunca se mijou de rir, de quem jamais foi a um show de rock, de quem nunca foi numa exposição de arte e ficou com aquela cara de “ah, entendi”, sem saber picas do que se tratavam os quadros.

Tenho pena de quem não lê, de quem não vibra por seu time, de quem não xinga o juiz, de quem nunca foi processado, de quem jamais acordou tardão de ressaca, de quem nunca faltou ao trabalho, nunca falsificou um atestado, nunca parou na sala de emergência do hospital, de quem não tomou anestesia geral. De quem não bagunça, de quem não brinca, de quem não volta à infância, de quem não ouviu “Super Fantástico” numa balada e ficou pulando. Eu tenho pena de quem é responsável demais, de quem não volta às origens. De quem não chupa manga e se lambuza todo. De quem não gosta de farinha láctea.

Eu tenho uma puta dó de quem não tem sobrinhos ou filhos, ou um primo pequeno, de quem nunca foi acordado pelo cachorro a lhe lamber as orelhas ou pela sobrinha te cutucando “acorda, titio”. De quem, vez ou outra, não acorda mal-humorado, de quem nunca quebrou de raiva algo que não funcionava direito, que nunca jogou nada contra a parede, de quem não andou a cavalo, não pisou na terra, não brincou em construção.

Eu tenho dó desse povo todo. Criança, eu? Nada, só vivo a vida. E tenho histórias pra contar. Você tem? Se não tem, eu tenho dó é de você.

9 Comentários:

Anonymous Ju Guidolin disse...

Histórias... tenho várias... mas pessoas que mereçam ouvir, essas são selecionadas...
Vivo na molecagem, assim penso sermos mais felizes. Concordo... e tbm tenho pena dos filhos do mundo que não se entregam à vida mundana!
Parabéns pelo texto...
cada vez melhor...
bjos

9:56 PM  
Anonymous Diego disse...

Eu não tenho pena não...rs

Cada um é responsável pelas suas atitudes...portanto não me arrependo de nada do que fiz até hj, muito pelo contrário, sou muito feliz pelos caminhos que vou conseguindo trilhar, pela maravilhosa pessoa que tenho ao meu lado hj e pelos meus grandes amigos.

Abs, dude!

9:58 PM  
Blogger Giselle Hoffmann disse...

Bom, eu diria q o texto está óóótemo!
pq vc tem pena de mim e eu tenho pena de vc!
pq, afinal, "oq nossa vida se não a junção de outras vidas". Muito de todos nós aí nesse texto, por mais que tentamos evitar. beijocas Clebão!

9:18 AM  
Blogger Giselle Hoffmann disse...

"...O que é nossa vida se não a junção de outras vidas?"
tirei essa frase de um texto aí, sabe..hehe

9:19 AM  
Anonymous Priscila disse...

tenho pena de quem não lê o seu blog e perde textos bacanudos como esse. bjks

10:48 AM  
Anonymous Anônimo disse...

EU TENHO PENA DE VOCÊ!!!!

BJOS.

Lis

1:41 PM  
Anonymous Kell disse...

PQP!!!
Creco, eu simplismente ADOREI o texto!!!!
Me arrependo de não ter entrado no seu blog antes... Pelo menos agora vou entrar sempre que a rede permitir e o workflow tbém.

Cara, parabéns!!
Mts beijos!!

1:55 PM  
Anonymous Vivi disse...

É, tem gente que nunca fez um monte de coisas aí, mas de repente é porque acha que não ia curtir. Agora se não fez porque simplesmente não fez eu tenho pena! rsrsrs! Mas na real eu tenho pena mesmo de quem não valoriza os amigos... essa pessoa tá ferrada! OU então... pena nada!!! Se não valoriza, que se dane! rsrsrsrs!
Eu já fiz um montão de coisas aí do teu texto!! Não me arrependo de nenhuma! :)
PS: adoro textos que me relembram a infância!!
Beijão!!

8:26 PM  
Anonymous Adolpho Gutierrez disse...

Cara, eu fiquei apaixonado pelo seu texto, mas calma esse tipo de experiência que de repente está surgindo em sua cabeça não coisa pra mim não... hahahahahaha...
Clebão, pouco te conheço cara, mas sei reconhecer um talento. Você escreve com o coração as coisas mais simples do mundo.
Parabéns, apenas Michelângelo entre poucos outros conseguem libertar "criaturas" de coisas brutas.
A citação de Nietzche é simplesmente fantástica...
O Padim não te deu ainda uma namorada, mas, acabou de te dar um admirador.
Valeu amigo!
Grande abraço.

8:02 AM  

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